O Secretário José Mariano encarregou a Sra. Sônia de nos receber em sua Secretaria. Fiz uma breve apresentação do Projeto, e ela lembrou-se de Christo, artista conhecido por "embrulhar coisas", e disse que estava em Paris na ocasião em que ele realizou a Pont Neuf .
Expliquei que a "pont neuf" de Teresópolis, não seria embrulhada. A ponte da Francisco Sá está com problemas de corrosão em diversos pontos de sua mureta, conforme constatei no último domingo, e contamos com assessoria da Secretaria de Obras, talvez equipamentos, para instalação dos cabos de aço. Ela entendeu o que precisávamos, disse que encaminharia o problema à equipe técnica da Secretaria e teríamos uma resposta em alguns dias.
Deixamos o Projeto com a Sra. Sônia e combinamos nova visita na próxima quinta feira, 19 de março.
Em 2006, participei de um festival internacional de vídeoarte na Rússia, Outvideo'06, organizado pelo grupo Artpolitika, através de uma convocatória internacional. A intenção desse evento era passar vídeoarte em gigantescos telões de publicidade (outdoors eletrônicos), espalhados por toda a Rússia, com transmissão simultânea. Ao todo, foram 39 telões em 16 cidades:Moscow, Saint Petersburg, Volgograd, Voronezh, Irkutsk, Kaliningrad, Krasnodar, Perm, Rostov-on-Don, Riazan', Samara, Sochi, Ufa, Yaroslavl', Yekaterinburg e Surgut.
Neste concurso, uma equipe de curadores selecionou vinte artistas para o prêmio "video of the day". Ou seja, cada artista teve um dia exclusivo seu (24h) para exibir seu trabalho individualmente. Fico imaginando a complexidade e o custo de uma mostra como essa.
Como ainda não dispomos desses telões por aqui, resolvi tentar mostrar meu trabalho nesse suporte inusitado,e mesmo sabendo que concorreria com muita gente do mundo todo, mandei um vídeo que, felizmente, foi selecionado.
O vídeo mostra uma cena cotidiana de Teresópolis. Na ocasião, havia um ônibus de linha urbana circulando pela cidade com uma propaganda religiosa estampada na traseira (plotagem). Percebendo a universalidade da mensagem, resolvi me apropriar dessa situação para realizar o vídeo: Um enorme Jesus surge na tela branca , olhar ameaçador, com a enigmática frase "ficarei olhando até que me entendas". Aos poucos, a câmera se distancia e o espectador percebe que não se trata de um quadro convencional.
registro fotográfico:Evgeny Belikov / cortesia: Arseny Sergeye (artpolitika)
A Secretaria de Segurança Pública de Teresópolis fica num shopping da cidade. Lá, fomos recebidos pelo elegante Secretário, Laet Moutinho, que imediatamente entendeu a nossa proposta. Experiente e viajado, quando entrevistado para o documentário, nos surpreendeu com a sensibilidade de sua resposta. Seu discurso era parecido com o de muitos artistas: "... Arte dá um sentido a vida". Bacana!
Prontamente, ofereceu a participação de sua Secretaria na REDE, assinando um termo de compromisso, disponibilizando segurança física da área de balizamento de trânsito no local onde o Projeto será realizado, bem como do objeto de arte em si e equipamentos. Próxima etapa: Secretaria de Obras
No último domingo, fomos na Galeria Teresópolis para medir, com mais precisão, a extensão do rio, e já tivemos uma prévia das dificuldades que serão enfrentadas na execução da REDE. Ficamos tontos com o mau cheiro do rio naquele trecho, a Rochelle quase vomitou! O pior é que o trabalho será realizado na época da estiagem, ou seja: o rio estará mais seco, insuportávelmente poluído e fedorento. A equipe terá de usar máscaras para gases. Pena que não vou conseguir por aqui aqueles equipamentos futurísticos que vemos em filmes de combate a guerra bacteriológica, ebola, etc. Constatei um problemão na lateral da ponte da rua Francisco Sá. O ferro está podre em alguns pontos da mureta e não posso utilizá-la para esticar os cabos de aço da REDE. Talvez tenhamos que colocar uns grampos diretamente no concreto da ponte para, daí, esticá-los com um tifor, pois pretendo eliminar ao máximo as "barrigas" dos cabos. Vamos tentar conseguir esta semana na Secretaria de Obras a orientação de um engenheiro.
Ontem, Rogério Féo, representando o Movimento Nossa Teresópolis, nos levou até a Galeria Teresópolis, um centro comercial da cidade, para sermos apresentados ao Sr. Khalil, o síndico. Os fundos da famosa galeria dão exatamente para o trecho do rio onde a Rede será instalada, e lá é ponto estratégico para a execuçâo do trabalho.
Pedimos ao Sr.Khalil acesso à calçada externa da galeria, a que dá para o rio (segunda foto), além de permissão para instalarmos refletores de iluminação noturna sobre a marquise. Ele concordou, e ainda nos deu várias dicas sobre o rio, já que ele está lá há anos observando diáriamente o que acontece por ali.
Por acaso, ontem tinha uma família de capivaras por ali, e tinha uma multidão olhando, o que é raro. Normalmente NINGUÉM dá a mínima pro rio, confirmamos essa péssima impressão com o Sr. Khalil. Espero que elas não morram intoxicadas, pois o rio está nojento até pra capivara!
Nosso encontro foi sobre a ponte da rua Francisco Sá. O cheiro estava bem ruim, mas ele disse que nos preparássemos, pois em junho é infinitamente pior! Dependendo do horário, é quase irrespirável ...
Nosso encontro com o Sub Secretário de Serviços Públicos, Leonardo Leal, foi muito bom. Pedimos a ajuda da Secretaria na limpeza do rio, e ele prontificou-se a ceder alguns homens, equipamento de segurança e transporte. Pouco a pouco como A REDE vai se expandindo...
Imagino que vou ter algumas dificuldades com o trabalho da REDE, coisa que percebi durante a realização de um projeto anterior, quando participei do Festival Inverno 2008 (SESC RJ). Eram video-instalações com televisões colocadas nas calçadas, mostrando imagens de cenas urbanas, em tempo quase real. Essas imagens interagiam com o espaço à sua volta como se pertencessem ao local, num exercício poético de deslocar situações cotidianas de um canto para outro. Muitas pessoas alcançaram imediatamente o sentido da proposta, crianças e adolescentes principalmente, e outras, pela falta de familiaridade com arte, se intimidaram.
Essa dificuldade de compreensão, diria mesmo uma certa desconfiança da população diante do que lhes parece "estranho", é muito natural, levando-se em conta o atraso e a aridez cultural da cidade. Apesar da proximidade com o Rio de Janeiro, o isolamento provocado pela falta de uma política pública de cultura local, durante tantos anos, provocou um embrutecimento no olhar, no discernimento da população em geral, para diferenciar aquele objeto, entre tantos outros, como uma obra de arte. Apesar da web, televisão e outros meios de informação, a falta de intercâmbio gerou imensa lacuna cultural, afetando sensivelmente a produção artística local, que está defasada, num total descompasso com a realidade. As propostas se tornaram cada vez mais básicas, pouco criativas e acomodadas, e a programação cultural é quase redundante, não instiga qualquer pensamento mais profundo. Do artista contemporâneo, espera-se que promova uma "circulação de idéias", mas aqui em Teresópolis, nos últimos anos, isso passou a ser uma atribuiçao exclusiva da classe jornalistica, que em sua maioria, não entende nem se interessa por Arte...
O artista urbano contemporâneo assume, como uma de suas principais metas e responsabilidades, o envolvimento dos cidadãos com sua cidade, e a constante renovação de vínculos com o meio ambiente. Isto é particularmente importante quando a paisagem urbana encontra-se cheia de cicatrizes, degradada e sendo pouco a pouco inutilizada como espaço público genuíno. Neste compromisso, ele desloca sua arte do circuito artístico tradicional, que são as galerias, instituições e museus, para chegar às ruas, tornando-a assim mais acessível ao público comum. Para isso, utiliza-se de diversas práticas artísticas: intervenções, apropriações, performances, interferências e outras experimentações variadas. Ou seja, arte pública, atualmente, vai muito além da clássica imagem a ela associada, de monumentos escultóricos em praças públicas, estatuário, etc.
Já ia me esquecendo de anunciar que o enredo da escola de samba Gaviões da Colina, da comunidade da Beira Linha, esse ano é: "Os Gaviões pousam sobre as águas com os olhos voltados para o momento da criação". Very interesting... Aproveito a oportunidade, para agradecer publicamente ao presidente da escola, André Duque e à toda comunidade, que me permitiram filmar os preparativos, desfile, e ensaio da bateria, cujo áudio, provávelmente, será utilizado na instalação da REDE.
Próxima parada, Sec. de Meio Ambiente. O Secretário de Meio Ambiente, Flávio Castro, gostou muito da proposta, nem hesitou em oferecer o apoio da Secretaria. Percebemos logo tratar-se uma pessoa muito articulada e experiente . Não precisamos nem explicar muito o trabalho, ele entendeu de imediato. Foi um alívio, pois sem essa parceria o trabalho fica impossível. O Sub-secretário, Maurício Lopes, foi bem legal também, e se prontificou a ajudar no que fosse possível. Ficamos todos, Leo, Rochelle e eu, bastante impressionados com o novo secretário, legitimamente preocupado com as questões ambientais, e, melhor ainda, falando com conhecimento de causa, pois preocupados, todos estamos, mas ter preparo para agir é outro papo, e ele parece extremamente competente. Em se tratando de Teresópolis, parece até milagre...Bom, voltando ao apoio, eles vão ajudar na limpeza do Rio, contatos noInstituto Estadual do Ambiente - INEA (é para onde foi a antiga Serla, nem sabia disso) ,etc
Desolado, Leo espera com seu equipamento de filmagem pelo Secretário de Comunicação Social, Ricardo Raposo, na porta da Prefeitura. Ele não apareceu, apesar de ter marcado.Mas não perdemos a viagem, já que encontramos o professor Nilo Sérgio (ambientalista) a quem rapidamente propusemos uma entrevista sobre o Rio Paquequer, que é o suporte do nosso trabalho.Ele parece ser um especialista no assunto.Vamos esperar que o Secretário Ricardo se "comunique" conosco brevemente.
Resolvemos começar as negociações pelo departamento supostamente mais ligado aos artistas, daí a primeira etapa foi a Secretaria de Cultura. Fomos bem recebidos pelo secretário Wanderley Peres e pelo sub-secretário Ronaldo Fialho, que estão atolados de propostas até o pescoço, sendo que a nossa é MAIS UMA nesse bolo. Para nossa alegria, após examinarem cuidadosamente o projeto, enxergaram potencial no trabalho e se prontificaram em oferecer a estrutura da prefeitura para tornar possível a execução de uma série de itens do projeto, tais como: local para a confecção da rede gigante, iluminação noturna, possível sonorização, área de ensaio (simulação), e também contatos em outras secretarias da Prefeitura que estão diretamente relacionadas ao projeto, como: meio ambiente, comunicação social, serviços públicos, educação, etc. Em dez anos, foi minha primeira incursão bem sucedida à Secretaria de Cultura em Teresópolis, pois até então, em todas as vezes em que tentei qualquer coisa lá, foi bizarro, tive a sensação que estava em Marte, falando um dialeto incompreensível e cercado de pessoas que podiam estar interessados em qualquer coisa, menos Cultura. Pensando bem, acho que era um mix de falta de interesse com ignorância total, uma lástima... A "REDE" começa a se articular...mas o tempo urge, pois tem que estar tudo pronto até o final de maio!
Conseguimos uma importante parceria, a do Movimento Nossa Teresópolis. Ainda não sabemos bem em que consiste esse apoio, mas espero que vá além da mera exposição da logo...
Trabalhos de arte urbana são, em sua maioria, de natureza efêmera, tal como esse que pretendo apresentar. O registro fotográfico e em vídeo é imprescindível, como forma de perpetuar ações artísticas de curta duração, já que, com o tempo, o trabalho está sujeito a cair no esquecimento. Nesse caso, o registro também faz parte da obra. Convidei o amigo e documentarista Leo Bittencourt para fazer este trabalho. Apesar de estar ocupado com outros projetos importantes, aceitou imediatamente, para minha felicidade. Ele é uma pessoa que tem sensibilidade, é aberto a novas experimentações, ligado em arte urbana também e ótimo para trocar idéias, além de ter o maior pique, o que é bem legal, pois essa Rede vai dar um trabalhão! Em nossas conversas, surgiu a idéia de irmos além do mero registro, resolvemos fazer um vídeo-documentário sobre todas as etapas do processo artístico, desde a negociação até a produção, montagem, performance, etc. O documentário passa a ser, então, parte vital da “REDE” colaborativa que mencionei anteriormente. Aliás, a idéia do blog surgiu também nessas conversas.
Pretendo fazer uma grande intervenção no espaço urbano. O trabalho consiste em ligar as duas pontes das ruas Francisco Sá e Duque de Caxias (conforme mostra a foto acima) sobre o Rio Paquequer, em Teresópolis, RJ, com uma rede (de aprox. 15m x 85m) cuja trama é feita de sacolas de supermercado. Unidas, as sacolas cobrirão inteiramente o leito do rio. Durante o período em que o rio estiver coberto pela rede, uma equipe descerá para um mutirão simbólico de limpeza neste trecho. Quando a rede for retirada, o público encontrará essa parte do rio mais limpa.
Está lançado o desafio. Muitas vezes um trabalho que pode parecer meio megalomaníaco torna-se uma realidade. O exemplo máximo disso, e de persistência, é o famoso artista bulgaro Christo , que produz numa escala descomunal, levando anos para finalizar uma obra. Se o artista não "delirar' um pouco, corre o risco de ficar eternamente preso em trabalhos convencionais. Tô fora, vou sair em campo prá ver que bicho vai dar...
Noel Arnaud, L’etat d’ebauche, in "La Poetique de L'espace", Bachelard, G.
O distanciamento da população de Teresópolis em relação ao espaço urbano local pode ser percebido pela descaracterização total da cidade, que foi palco de inúmeras transformações e crescimento desordenado nos últimos anos. Caminhar pelas ruas da cidade vai, pouco a pouco, sendo cada vez menos saudável e aprazível. As calçadas são imundas, quebradas e intransitáveis, o excesso de veículos produz um barulho ensurdecedor e uma opressiva poluição visual obstrui todos os horizontes, outrora um grande atrativo da cidade. Durante esse processo acelerado de ocupação, e em nome de uma pseudomodernidade, copiou o que os grandes centros têm de pior, e o resultado é caótico. No meio de tudo isso, pessoas circulam indiferentes e passivas, sem perceber o enfeiamento progressivo da cidade, aparentemente não se dando conta das conseqüências dessa decadência.
Sufocado por todo esse caos encontra-se um sobrevivente, a espinha dorsal da cidade, outrora cantado em verso e prosa: o Rio Paquequer. Ele foi, gradativamente, perdendo o status de rio, para se tornar uma vala de esgoto a céu aberto, um “inconveniente” que cruza a cidade, e somente é lembrado quando suas águas transbordam durante os temporais.
À partir dessas observações, pretendo realizar este projeto de arte urbana em Teresópolis. Este tipo de trabalho funciona, de uma maneira sutil e poética, para “sacudir” os sentidos embotados das pessoas, e chamar atenção para a cidade onde vivem.
Assim como o Rio Paquequer é a espinha dorsal da cidade, resolvi produzir um trabalho de arte, uma instalação, que atue como um “eixo reflexivo” sobre a população ribeirinho-urbana de Teresópolis. Em sua realização, o projeto envolve a participação de diversos setores da sociedade local: Instituições, associações, Prefeitura, Estado, comércio, empresários, estudantes, formando assim uma imensa “REDE” colaborativa.